Em Paris, assessor especial de Lula pondera sobre o papel do novo mandato de Trump nas negociações de paz e destaca a importância de uma diplomacia equilibrada.
O assessor especial de Lula para assuntos internacionais, Celso Amorim, destacou nesta segunda-feira (11) em Paris que o segundo mandato de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos “pode trazer surpresas” na busca por uma solução para conflitos globais, em especial as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Amorim, que participa do Fórum de Paris pela Paz, acredita que a atual conjuntura internacional pode ser um momento oportuno para mudanças na abordagem diplomática, priorizando o equilíbrio e o pragmatismo sobre ideologias rígidas.
“Curiosamente, estou esperançoso de que essas mudanças que estão ocorrendo provoquem alguma mudança na cabeça das pessoas também, e que se verifique que o equilíbrio, a paz, talvez seja mais importante do que impor uma certa ideologia”, disse Amorim em entrevista à Folha de S.Paulo, pouco antes de sua participação no fórum, evento que desde 2018 reúne políticos e representantes da sociedade civil para debater temas de paz e segurança global.
Durante o evento, o assessor especial ressaltou sua simpatia pelo Partido Democrata e lembrou que o presidente Lula declarou apoio a Kamala Harris, candidata derrotada por Trump nas recentes eleições norte-americanas. No entanto, Amorim enfatizou a importância de buscar “um ponto positivo” em toda situação, ainda que modesto. “Claro, esse ponto pode ser muito pequeno, mas se você não se concentra nele, vale tudo. No caso de Trump, esse ponto seria uma dose de realismo, que pode ser útil, em vez de um idealismo excessivo”, afirmou.
Para Amorim, uma das qualidades de Trump na esfera internacional é sua capacidade de respeitar líderes que demonstrem força e convicção, algo que poderia abrir caminhos para um “diálogo de formato diferente”. Ele comparou essa possibilidade ao estilo diplomático do ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, falecido em 2023, cuja abordagem pragmática e realista marcou as relações exteriores dos EUA durante a Guerra Fria.
Possibilidade de acordo entre Ucrânia e Rússia
A vitória de Trump despertou especulações sobre a possibilidade de um acordo de paz entre Ucrânia e Rússia. Segundo relatos, Trump estaria considerando a criação de uma zona-tampão desmilitarizada entre os dois países, que abrangeria aproximadamente os territórios ucranianos atualmente ocupados pela Rússia. A proposta, no entanto, ainda não encontrou apoio significativo entre os líderes da comunidade internacional, que veem com cautela qualquer arranjo que possa ser percebido como uma concessão à agressão russa.
Em meio a essas discussões, Amorim reiterou a posição do Brasil de condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia, mas ponderou sobre as causas do conflito. Para ele, a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Leste Europeu, vista por Moscou como uma provocação, é um elemento que não pode ser ignorado nas negociações de paz. “Já no começo dos anos 1950, [o historiador Arnold] Toynbee, que não era fã da União Soviética, disse que a Rússia tinha um argumento. A forma de agir da Otan terá de ser parte da solução para a Guerra da Ucrânia”, comentou.
Defesa da multipolaridade e o papel do Brasil no Brics
Celso Amorim também aproveitou o Fórum de Paris para defender uma “multipolaridade civilizada” nas relações internacionais. Ele destacou a recente participação do Brasil na cúpula do Brics, realizada em outubro sob a liderança do presidente russo Vladimir Putin, e mencionou a próxima cúpula do G20, que acontecerá no Rio de Janeiro ainda neste mês de novembro. Para Amorim, o fortalecimento de grupos como o Brics é essencial para equilibrar o poder global, criando alternativas ao tradicional domínio das potências ocidentais.
“Um amigo me perguntou por que o Brasil se esforça tanto pelo Brics. E eu disse: para reforçar o G20. Porque o G20 é o que há de mais próximo de um fórum equilibrado. Um Brics mais forte torna o G20 mais forte. Do contrário, os países ricos se resolveriam só com o G7 e convidados”, explicou. O assessor destacou a importância de ampliar a representatividade de países emergentes e em desenvolvimento em fóruns globais, como forma de garantir um sistema internacional mais justo e equilibrado.
Uma Europa mais independente militarmente
Diante da possibilidade de um novo mandato de Trump influenciar a diminuição da presença militar dos EUA na Europa, Amorim sugeriu que essa mudança poderia impulsionar o continente a buscar maior independência em termos de defesa. “Já dizia o [ex-presidente francês Charles] De Gaulle, né? Falava da Europa ‘dos Pirineus aos Urais’. Naquela época não podiam entrar Espanha nem Portugal, por causa do Franco e do Salazar. Agora pode ser ‘de Cascais aos Urais’ e ter uma paz na Europa”, comentou, fazendo alusão aos ditadores Francisco Franco, da Espanha, e António Salazar, de Portugal.
Essa visão de uma “Europa dos Pirineus aos Urais” remete a um conceito de autonomia europeia em questões de defesa, algo que De Gaulle defendia nos anos 1960. A proposta de um Exército europeu independente ganha relevância no contexto atual, em que a União Europeia enfrenta desafios internos e externos, incluindo as tensões com a Rússia e o potencial distanciamento dos EUA, caso Trump adote uma postura isolacionista em relação ao continente.
Fórum de Paris pela Paz: cenário de diálogo
O Fórum de Paris pela Paz, onde Amorim fez essas declarações, é realizado anualmente desde 2018 na capital francesa, em frente à Torre Eiffel. Organizado por uma ONG apoiada por entidades da sociedade civil e do setor privado, o evento busca fomentar o diálogo sobre a paz e a segurança globais, reunindo políticos, diplomatas, acadêmicos e representantes de organizações não governamentais.

Em um cenário geopolítico marcado por crises e polarizações, o fórum oferece um espaço de discussão onde países de diferentes perfis e perspectivas podem buscar soluções conjuntas para problemas globais. Este ano, as atenções se voltam para o papel das grandes potências, especialmente os EUA sob a liderança de Trump, e a resposta da comunidade internacional a temas como os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.
As reflexões de Celso Amorim mostram o interesse do Brasil em um papel diplomático ativo, defendendo um mundo multipolar e equilibrado. A perspectiva de uma diplomacia pragmática com o governo Trump, embora envolta em incertezas, é vista pelo assessor como uma possível oportunidade para o avanço da paz e estabilidade globais.
Gostaria de saber mais sobre o mercado financeiro?
Acesse nosso canal no Youtube: www.youtube.com/@prozadeinvestidor